segunda-feira, 8 de junho de 2009

O Egito Africano

Mônica Carolina Savieto*

Muitos poderão estranhar o título deste breve artigo. Poderíamos considerar que se trata simplesmente de um pleonasmo. Mas, antes da década de 1950 e, sobretudo antes do colóquio realizado no Cairo em 1974, a historiografia tratou o Egito Antigo como uma civilização praticamente dissociada da África. Ainda hoje tal concepção está presente no âmbito do senso comum.
As pesquisas realizadas por Cheik Anta Diop, um dos principais participantes deste colóquio, foram preciosas para possibilitar uma nova visão e inaugurar uma nova historiografia para a África. O Egito africano, na sua identidade eminentemente negra e nas suas articulações com outras civilizações do continente, começa a ser esboçado.
Diop, pesquisador nascido no Senegal (em 1923), a partir dos 23 anos, fez seus estudos em Paris. Em 1951, sua tese de Doutorado foi rejeitada pela Sorbonne. Por fim, sua tese foi aceita com restrições em 1960. Sua tese, tão polêmica para a época, defendia simplesmente que a composição populacional original do Egito Antigo era negra.
Diop foi, nas décadas de 50 e 60, uma voz dissonante no meio acadêmico europeu. E sua grande importância para a historiografia e para a política africanas residiu justamente nesta dissonância.
Ao criticar autores europeus consagrados e precursores de estudos europeus sobre a Africa no século XIX - tais como Leo Frobenius, Olbrechts e Baumann -, Diop rompeu com o eurocentrismo e resgatou a cultura africana a partir de um olhar “de dentro”, ou seja, não permeado pela visão do conquistador. Desta forma, caberia aos africanos contarem sua própria história.
Há que se contextualizar a produção acadêmica destes autores europeus – e aqui delimitarei o autor Frobenius – pois suas produções transformaram-se em justificativa ideológica para um projeto político do século XIX.
Analisar cuidadosamente o discurso destes autores significa dar um passo no sentido da emancipação do continente africano, superando idéias pré-concebidas, estereotipadas, enfim, visões externas e alheias ao objeto de estudo.

Frobenius, em sua obra Mythologie de l’Atlantide, utiliza categorias tais como “raça” e “tribo” ao se referir aos Yorubá e os adjetiva de “primitivos”, “antipáticos”, “mentirosos”, “preguiçosos”, “sem educação moral”, “com muitos vícios” etc. Ao analisar a política, considera que “o sistema de governo atual é absolutamente deplorável” e que “o povo não tem noção que existe uma classe social dirigente” (FROBENIUS, 1949: 48 – 51). Estas afirmações claramente demonstram uma visão absolutizada do que seja uma “civilização”.
Ao analisar a arte Yorubá, Frobenius atribuiu-a a artistas provenientes de Cartago. Outros pesquisadores também atribuíram à diversidade cultural africana a influências externas. Considerou-se que as esculturas da Nigéria teriam origem grega; que as obras em bronze de Ifé seriam de origem italiana (do Renascimento) ou portuguesa ou, ainda, romana; que a arte Ashanti seria influenciada pelos portugueses ou pelos muçulmanos da Espanha. Enfim, toda a inventividade e originalidade cultural africana teria, segundo estes autores, origem externa.
Diop desvalida este tipo de argumentação. Cita que esta é uma “invenção cômoda” (DIOP, 1949) dos acadêmicos ocidentais para explicar a complexidade das civilizações africanas.
São, antes de tudo, argumentos a serviço do neo-colonialismo europeu. Diop contextualiza este projeto político ao aliar colonialismo e eurocentrismo, por um lado, e descolonização e afrocentricidade, por outro. Enfim, é necessário descolonizar as mentes, estimular novos olhares, propiciar pesquisas a partir do olhar africano e, com isso, dar visibilidade a outros projetos políticos. Assim, é possível desmontar os argumentos ideológicos dos conquistadores europeus e reforçar a identidade cultural africana.

Diop, ao pesquisar a população do Egito Pré-Dinástico e Dinástico, reportou-se a fontes iconográficas, materiais, escritas, além das de caráter biológico, já utilizadas por autores que consideravam haver no Egito uma significativa população branca.
Primeiramente, Diop denunciou o caráter arbitrário utilizado até então para tipificar as características físicas da população egípcia em negra ou branca. Alguns dados eram aceitos consensualmente e até revestidos de cientificismo ao descrever exaustivamente as supostas características eminentemente negras em contraste com as brancas (entre muitas variáveis, estes pesquisadores europeus citavam: largura do nariz, altura da órbita, comprimento do palato, comprimento e largura da face, etc.). Houve um grande esforço em catalogar quase dois mil crânios, do período Pré-Dinástico, nestes padrões. Como resultado, estas pesquisas apontavam para uma população composta por “36% de negróides, 33% de mediterrânicos, 11% de cro-magnóides e 20% de indivíduos que não se enquadravam em nenhum desses grupos, mas se aproximavam dos cro-magnóides ou dos negróides” (FALKENBURGER Apud DIOP, 1983: 41).
Diop denunciou o caráter arbitrário destes critérios, o método quase aleatório que chegava a dados altamente questionáveis. Mas estes dados revestiam-se do cientificismo típico de um trabalho exaustivamente quantitativo. Afinal, diriam estes pesquisadores europeus, foram esquadrinhados quase dois mil crânios! Nada mais inútil. Partiu-se da idéia de que há uma população negra homogênea, bem como uma população branca homogênea.
Para além dos fatores biológicos, há os fatores culturais. E Diop alia a cultura egípcia – religião, práticas cotidianas, relações familiares, práticas políticas, trabalho, entre outros – às várias civilizações africanas.
Desta forma, o diálogo da História com a Antropologia e a Etnologia se dá de forma mais rica do que o diálogo com a Biologia. Assim, foca-se um outro Egito Antigo: inserido de fato na África, em meio a uma diversidade cultural não hierarquizada.
Enfim, Diop contribui para a formação de uma historiografia que rompe com uma concepção temporal linear ou evolutiva, com o eurocentrismo e apontou para uma nova metodologia na história e para novos projetos políticos: a afrocentricidade e o Panafricanismo.

Em uma palestra proferida na Unicastelo, por ocasião da Semana de História de 2005, Abdu Ferraz (membro da Liga de Amigos e Estudantes Africanos) citou que o deus europeu cristão seria uma espécie de “deus juiz”, e o contato do homem com este se daria pela oração. Já o deus africano seria uma espécie de “deus artista”, e o contato do homem com este deus se daria pela expressão artística (música, dança, etc.). Neste sentido, o Egito Antigo se aproxima muito mais da África.
No Egito Antigo, havia a crença de que todos, desde o faraó até o camponês, eram responsáveis pela harmonia e pela redução do caos, ou seja, seriam colaboradores da deusa Maat (deusa da verdade, justiça, equilíbrio, medida). Temos aqui uma concepção de culto religioso em meio à colaboração. Esta concepção, de diferentes formas, aparece em outras sociedades africanas: ao expressar-se – artisticamente – colabora-se com a harmonia do universo.
Por outro lado, na Mesopotâmia, por exemplo, cabe ao homem submeter-se às “leis divinas”. Este homem já não é um colaborador (tal como na Egito), mas um ser a serviço dos deuses. Ciro Flamarion Cardoso sintetiza esta concepção mesopotâmica ao citar “eis aí o que, antes de tudo, se espera dos homens para que a ordem do mundo não fique desregulada. Obediência; e não, colaboração ativa e ética (CARDOSO, 1999: 52).”
Interpretações deste tipo, decerto ousadas, só foram possíveis primando pelo olhar africano. Enfim, um grande caminho para pesquisas foi aberto. Estando atentos para novos olhares, pautados pela afrocentricidade, poderemos focar a África por ela mesma e, como um desdobramento disso, focar um Egito verdadeiramente africano.





* Professora das disciplinas Antiguidades, Antiguidade e Fundamentos do Mundo Medieval e Medievalismo do curso de História da Unicastelo.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CARDOSO, Ciro Flamarion. Deuses, múmias e ziggurats: uma comparação das religiões antigas do Egito e da Mesopotâmia. Porto Alegre: Coleção História 27, 1999.
DIOP, Cheikh Anta. Nation nègres et culture. V.2. Paris: Presence Africaine, 1949.
_________________Origem dos antigos egípcios. In MOKHTAR, G. (org.). História Geral da África. V.1. São Paulo: Ática; Paris: UNESCO, 1983.
FROBENIUS, Leo. Mithologie de l’Atlantide. Paris: Payot, 1949.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Educação e Novas Tecnologias

O impacto das Novas Tecnologias tem provocado mudanças na Educação, que não tarda a incorporar os últimos recursos tecnológicos direcionados ao setor. Dessa forma, a integração de novas mídias como televisão e Internet não é mais novidade estranha à sala de aula. Pelo contrário, contribui para a criação de novas estratégias de ensino, aprendizagem e auto-capacitação.

Links
Educação a distânciahttp://www.eca.usp.br/prof/moran/ead_ar.htmTextos comentados sobre Educação, Tecnologia e Ensino a Distância que estão nos sites do Intelecto, CNPQ, PUC-RS, CEDL e Office-Learning.Vivência Pedagógicahttp://www.vivenciapedagogica.com.brSite que apresenta e discute artigos, experiências e dicas relacionados ao uso das novas tecnologias aplicadas à educação. Conta também com uma comunidade virtual formada por cerca de 350 educadores de diversas regiões do Brasil .Orientações curriculares de Educação Tecnológica do Ministério da Educação de Portugalhttp://www.deb.min-edu.pt/rcurricular/pdf/EducacaoTecnologica.pdfO perfil de um cidadão tecnologicamente competente, seleção e organização de conteúdos e situações de aprendizagem/experiências que todos os alunos devem viver são alguns dos tópicos encontrados neste site. Ensino Médio High-Tech: uma boa idéia. NDOL. In: Revista Digital. 2000http://www.revistadigital.com.br/tendencias.asp?CodMateria=200Traz o caso da Academia de Tecnologia da Informação, em Stamford, Connecticut, uma entidade criada a partir da parceria entre escolas públicas e empresas de alta tecnologia da região, para formar profissionais qualificados. A sociedade da informação e a infoexclusão. Rodrigo Baggio. Ciência da Informação, Ago 2000, vol.29, no.2, p.16-21. http://www.scielo.br/pdf/ci/v29n2/a03v29n2.pdfArtigo sobre a era da informação e a democratização das ferramentas tecnológicas, como um dos principais requisitos do novo mercado de trabalho.Quaderns Digitals (em espanhol)http://www.quadernsdigitals.net/index.php?accionMenu=biblioteca.EnLineaLibroIU.getLista&PHPSESSID=f05f048eaae96f29bb5334c8b5b1ddd2 Apresenta mais de 20 títulos abordando o tema de educação & novas tecnologias, todos disponíveis on-line.

Novas Tecnologias na Educação

1

INTRODUÇÃO
Novas tecnologias na educação, falar em público, efeito do contínuo desenvolvimento da tecnologia sobre a educação e a oratória.
A constante mudança das novas tecnologias têm produzido efeitos significativos na forma de vida, trabalho e modo de entender o mundo da oratoria falar em publico das pessoas. Essas tecnologias também têm afetado aos processos tradicionais de ensino e aprendizagem (ver História da educação). A informação tecnológica, como uma importante área de estudo em si mesma, está afetando os métodos de ensino e de aprendizagem através de todas as áreas do currículo, o que cria expectativas e desafios. Por exemplo, a fácil comunicação mundial proporciona o acesso instantâneo a um vasto conjunto de dados, de modo que desperta nosso sentido de curiosidade e de aventura obrigando-nos ao mesmo tempo a fazer um esforço maior de assimilação e discriminação. A rapidez nas comunicações e nos meios de falar em público aumentam ainda mais o acesso à novas tecnologias na casa, no trabalho e nos centros escolares, o que significa que a aprendizagem passa a ser uma atividade real de caráter permanente, na qual o trajeto da mudança tecnológica força a uma avaliação constante do processo de aprendizagem, bem como o medo de falar em público.

2

AS TECNOLOGIAS DA COMUNICAÇÃO NA EDUCAÇÃO E NA FORMAÇÃO
O uso das tecnologias da comunicação como o correio eletrônico (ver Telecomunicação), o fax, o computador e a videoconferência, além dos serviços prestados pelos satélites, reduz as barreiras do espaço e do tempo (ver Comunicação via satélite ou oratória ). O uso dessas tecnologias está aumentando e hoje é possível formar uma audiência muito espalhada com vídeo e áudio e obter outros dados por meio dos quais se pode avaliar os trabalhos dos alunos (ver Educação audiovisual). No futuro, é provável que em vídeo de dupla banda se possa transmitir informação para todas as redes terrestres.
As escolas e as faculdades, além da Oratoria convencional, usam cada vez mais meios como a Internet, através do qual podem conectar o computador da National Aeronautics and Space Administration (NASA) na Flórida e obter informação sobre a exploração no espaço tanto em texto quanto em imagem fixa ou em vídeo retórica.
Os estudantes devem considerar os computadores como ferramentas que podem utilizar em todos os aspectos de seus estudos. Em particular, necessitam das novas tecnologias multimídia para comunicar idéias, descrever objetos e outras informações em seu trabalho. Isso exige selecionar o melhor meio para verter a mensagem, para estruturar a informação de uma maneira ordenada e para relacionar informação que permita produzir um documento multidimensional em expressão verbal sem medo de falar em público.
Veja a lista dos melhores (e piores) Cursos de Oratória.
Além de ser um tema em si mesmo, as novas tecnologias incidem sobre a maior parte das áreas do conhecimento. Nas ciências os computadores são usados com sensores para ordenar e manejar os dados; para realizar modelos na matemática, na geometria e na álgebra; no desenho e na tecnologia, os computadores são fundamentais nos níveis da pré-fabricação; nas línguas modernas, as comunicações eletrônicas dão acesso às retransmissões estrangeiras e outros materiais; e na música, o computador permite ao aluno compor e estudar sem ter que aprender a tocar os instrumentos tradicionais. Para os alunos que necessitam de uma atenção especial na educação, proporciona o acesso aos materiais mais úteis e permite aos estudantes, apesar de suas dificuldades como oratoria expressarem seus pensamentos em palavras, desenhos e atividades.
3

LINHAS FUTURAS NA TECNOLOGIA E NA APRENDIZAGEM
Os radicais desenvolvimentos tecnológicos na miniaturização, as comunicações eletrônicas e os multimídia confirmam a promessa de transformar os computadores em algo próximo, verdadeiramente pessoal e móvel. A passagem para a tecnologia digital está eliminando as barreiras entre a difusão, as publicações e o telefone ao fazer com que todos esses meios sejam acessíveis graças aos programas do computador e das televisões. Esses desenvolvimentos darão aos estudantes acesso às amplas bibliotecas e recursos multimídia em todo o mundo.
A crescente renovação e disponibilidade da tecnologia nas escolas e faculdades permitirá um ensino mais individualizado, o que afetará de forma direta o sistema educacional oratória.
Conecte Peer to Peer - P2P News e saiba tudo sobre as tecnologias do Kazaa e Shareaza.
Dado que a tecnologia proporciona um fácil acesso dos estudantes aos materiais previamente preparados pelos professores, o papel do professor passará a ser mais o de um mentor ou animador do aprendizado e não apenas a fonte dos conhecimentos. O acesso dos estudantes à informação fará que a orientação e a evolução passem a ser processos mais positivos e próximos graças ao uso desse tipo de ferramenta de falar em público .
Na medida em que a tecnologia pode ajudar aos estudantes a trabalharem em diferentes níveis e conteúdo será possível atender melhor os aprendizados diferenciados, o que permitirá desenvolver as capacidades individuais de todos e cada um dos alunos. A simplicidade e rigor da tecnologia para avaliar continuamente os avanços dos estudantes individualmente permitirá ao sistema medir a qualidade do aprendizado real.
O uso da tecnologia para proporcionar acesso à informação e ao monitor e a possibilidade de avaliar o aprendizado significa que ela pode ser realizada em qualquer momento e lugar. O desenvolvimento na tecnologia da comunicação e o incremento na prática pessoal da tecnologia permitirá que o ensino nas escolas e faculdades se integre com o que se aprende em qualquer outro lugar de expressão verbal.
Atualmente, assistimos uma revolução tecnológica na qual se produzem mudanças rápidas e bruscas na forma como as pessoas vivem, trabalham e se divertem. Como o ritmo do avanço tecnológico não parece que irá frear, o desafio está em aprender a adaptar-se às mudanças com o mínimo de esforço físico ou mental. Para consegui-lo, os sistemas de aprendizagem e aqueles que os manejam devem preparar as pessoas para trabalharem com as novas tecnologias com segurança e de forma adequada, e a superar as mudanças constantes nas novas formas de trabalho, fazendo do aprendizado um processo natural permanente de expressão verbal.

Links
História do Público
Curso de Oratória do Instituto Moreira Necho
História da Comunicação
Comunicação
Educação
Linguagem
Informação
Jornalismo
Publicidade
Ensino
A Literatura
Expressão
Entendendo Direito
Introdução a comunicação
Escola
História
Por dentro da Literatura
in:http://www.geocities.com/xyzbbb2/

Globalização versus Educação ?

Percebo que a globalização está ditando o consumo de novos aparatos tecnológicos, o que recai sobre a esfera educacional com a falsa idéia de que melhores recursos tecnológicos são a garantia de melhor aprendizagem. Vi ainda que, de acordo com Schaff, atualmente estamos, historicamente, na segunda grande revolução industrial, onde as capacidades intelectuais estão sendo substituídas pela automação. Esta revolução, a da microeletrônica, vem ocasionando uma significativa redução do trabalho assalariado.Quando observamos minuciosamente as redes de globalização identificamos uma crescente demanda por conhecimento tecnológico e habilidades inovantes, por parte das empresas, ou seja, é um novo estilo de gerenciamento organizacional, influenciado pelo espírito da globalização.Desta forma, a globalização torna-se um fator de proporções diversas, ou seja, ela pode ser benéfica e maléfica à educação. Por sua vez, acredito veemente que, sendo ela uma nova representação do mundo, eliminando as divisões entre o que é local, nacional e internacional, a globalização torna-se uma grande aliada na difusão das informações, tornando-as acessíveis a um grande número de pessoas e de forma ágil e prática, características essenciais ao estímulo educacional.
in:http://www.wendley.com/praxis/2006/11/globalizao-versus-educao.html

sexta-feira, 6 de março de 2009

A Educação no Contexto da Globalização
Prof. Elian Alabi Lucci(autor de livros didáticos)
A globalização econômica é um processo que ocorre em ondas, com avanços e retrocessos separados por intervalos que podem durar séculos.
Para um certo número de estudiosos, a primeira onda globalizante se deu por ocasião da ascensão do Império Romano. Enquanto os gregos se dedicavam à filosofia em suas cidades-estados e ilhas, os romanos articulavam seu sistema legal, difundiam o uso da moeda e protegiam o comércio contra as investidas dos piratas. Com a queda do Império Romano, acabou ocorrendo uma feudalização política e comercial, pondo fim ao primeiro movimento de globalização.
A segunda globalização se deu nos séculos XIV e XV, com o ingresso do mundo ocidental na era dos grandes descobrimentos marítimos. Mas o grande surto do comércio internacional, com a abertura comercial para o Oriente, foi freqüentemente interrompido por guerras religiosas e dinásticas das monarquias européias. Foi nesse período que, pela primeira vez, se falou verdadeiramente em globalização da economia. Segundo Schumpeter (History of Economic Analysis, 1954, p. 85), isso coube ao Arcebispo de Florença, S. Antonino (1439), que na sua Suma Teológica, em que tratava de ética e economia, propôs uma economia moderna concebida globalmente e cujo objetivo mais importante era, sem dúvida, promover a justiça social. No tocante à propriedade, Antonino diz que o destino universal dos bens é um direito natural e, portanto, inalienável a que todos temos direito.
"Schumpeter ha escrito sobre Antonino de Florencia que ‘probablemente se trate del primer autor que debamos una aproximación global a la economia en sus distintos aspectos esenciales’. Es este, sin duda, un gran homenaje para un dominico que se convertiría en arzobispo de Florencia y escribiria una Suma Teológica de la que ha podido un auténtico tratado de economia de factura asombrosamente moderna." LAUBIER, Patrick de. Hacia la civilizacion del amor. Madrid, Rialp, 1993, p.71
A própria economia social de mercado, defendida pela China hoje, teve origem, segundo Schumpeter e outros economistas e cientistas sociais, nas tentativas de Antonino de promover regulações de caráter ético, quanto aos preços em economia.
A terceira globalização se daria mais recentemente, no século XIX, no final das guerras napoleônicas. Ainda nesse século, o liberalismo sobrepujou o mercantilismo e começou a ganhar espaço a democracia política. Mas essa nova onda globalizante sofreria uma abrupta interrupção com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
A quarta e atual globalização passou a ocorrer logo após a Segunda Guerra Mundial e se acelerou bastante com o colapso do socialismo em 1989-1991. Essa retomada da tendência à globalização é caracterizada pelo aparecimento de organizações internacionais (ONU, Gatt - substituído pela OMC, Bird etc), pela formação de blocos regionais, como o Mercado Comum Europeu (atual UE-União Européia), pelo enorme surto de expansão das empresas multinacionais, pelo crescimento do comércio internacional e pela interligação dos mercados financeiros, possível graças à revolução da telemática.
Com o colapso do socialismo, reduziram-se as barreiras comerciais e aumentou o fluxo de investimentos para a Europa Oriental. A China começou a abrir-se comercialmente a partir de 1978, sendo, atualmente, o segundo país que mais absorve capitais estrangeiros, só perdendo para os EUA. Nota-se, cada vez mais, que a grande clivagem entre o capitalismo e o socialismo parece, em retrospecto, uma "guerra civil" dentro do Ocidente, uma vez que tanto o liberalismo quanto o marxismo são criações da cultura ocidental. O marxismo chinês e o de outros países asiáticos possuem características culturais próprias. Daí podermos dar razão a Samuel Huntingthon - diretor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade de Harvard e autor de The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order - quando diz que os futuros conflitos não serão mais entre sistemas socioeconômicos, mas entre civilizações.
"Após a Guerra Fria, a política mundial deixou de reger-se por posturas ideológicas; agora se realiza segundo pautas culturais. A maior fonte de conflitos internacionais não será o enfretamento ideológico, mas o choque de civilizações."
HUNTINGTHON, S. Aceprensa (Pensamiento), Madrid, junho de 1997, p. 2
O atual processo globalizante tornou-se muito mais rápido, mais intensamente acelerado, com a revolução nas comunicações e mesmo com o maior avanço dos meios de transportes em geral. Também tornou-se mais abrangente, envolvendo não só comércio, produção e capitais, mas também serviços, arte, educação etc. Não sem razão, esse processo tem causado muito mais apreensão do que entusiasmo.
A globalização em sua fase atual teve uma contribuição importante dos japoneses com o conceito de "just in time", aplicado à produção, sobretudo industrial. Com o "just in time", começaram a surgir vários conceitos, como: reengenharia, "downsizing", terceirização e qualidade total.
A reengenharia, criação dos anos 90, trouxe alterações na atividade industrial que contribuíram para acelerar o processo de desemprego em massa nos países industriais e que vem atingindo também os países ditos emergentes.
A Importância da Educação
Com o advento da quarta globalização, que para muitos se confunde com uma nova era, a do conhecimento, a educação é tida como o maior recurso de que se dispõe para enfrentar essa nova estruturação do mundo. Dela depende a continuidade do atual processo de desenvolvimento econômico e social, também conhecido como era pós-industrial, em que notamos claramente um declínio do emprego industrial e a multiplicação das ocupações em serviços diferenciados: comunicação, saúde, turismo, lazer e informação.
O maior recurso - a educação
"Através da história e em virtualmente toda a parte da Terra, os homens viveram e multiplicaram-se, criando alguma forma de cultura. Sempre e em toda parte encontraram seus meios de subsistência e algo para poupar. Civilizações foram erguidas, floresceram e, na maioria dos casos, declinaram e pereceram. Este não é o lugar para examinar porque pereceram; podemos dizer, porém, que deve ter havido alguma falta de recursos. Na maioria dos casos, novas civilizações despontaram, no mesmo terreno, o que seria assaz incompreensível se apenas os recursos materiais tivessem falhado antes. Como teriam podido reconstituir-se tais recursos?
Toda a história - assim como toda a experiência atual - aponta para o fato de ser o homem, e não a natureza, quem proporciona o primeiro recurso: o fator-chave de todo o desenvolvimento econômico brota da mente humana. Subitamente, ocorre um surto de ousadia, iniciativa, invenção, atividade construtiva, não em um campo apenas, mas em muitos campos simultaneamente. Talvez ninguém seja capaz de dizer de onde isso surgiu, em primeiro lugar, mas podemos ver como se conserva e até se fortalece: graças a vários tipos de escolas, por outras palavras, pela educação. Numa acepção bastante real, por conseguinte, podemos afirmar que a educação é o mais vital de todos os recursos."
SCHUMACHER, E.F. O negócio é ser pequeno. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1983, p. 67
Lester Thurow, ex-diretor do Instituto de Tecnologia de Massachussets e coordenador do Instituto Ásia-Pacífico, disse em São Paulo, em julho de 1997: "adaptado à nova ordem estará o país que, aberto à competitividade global, realize gigantescos investimentos em educação, já que a maior riqueza nacional passou a ser a mão-de-obra qualificada."
Tudo leva a crer que no século XXI, a principal atividade "industrial" será o turismo. Com a redução das jornadas de trabalho na maior parte do mundo industrializado ou "ex-industrializado" e a idade avançada de seus habitantes, até pelo menos durante o período de reposição da população, o que as pessoas farão com o seu tempo disponível? Vão fazer mais viagens e irão em busca de mais entretenimento. A arte também, nesse processo de mudanças, passará a ter um papel mais importante do que teve até agora, uma vez que o tipo de profissional exigido no século XXI será o homem "global".
Esse homem "global" terá por obrigação estudar durante toda a vida para se manter atualizado e membro da sociedade do conhecimento.
Aprendendo a aprender "Educação básica significa tradicionalmente, por exemplo, a capacidade de efetuar multiplicações ou algum conhecimento da história dos EUA. Mas a sociedade do conhecimento necessita também do conhecimento de processos - algo que as escolas raramente tentaram ensinar. Na sociedade do conhecimento, as pessoas precisam aprender como aprender. Na verdade, na sociedade do conhecimento as matérias podem ser menos importantes que a capacidade dos estudantes para continuar aprendendo e que a sua motivação para fazê-lo. A sociedade pós-capitalista exige aprendizado vitalício. Para isso, precisamos de disciplina. Mas o aprendizado vitalício exige também que ele seja atraente, que traga em si uma satisfação." DRUCKER, P. Sociedade pós-capitalista. São Paulo, Pioneira, 1995, p.156
Quanto às mudanças na educação, além do novo enfoque exigido sobretudo em ciências sociais, do ponto de vista da pedagogia global, será preciso trabalhar mais com a informalidade, que por sua vez, só pode ser alcançada através da pedagogia da alegria e da positividade, cujos principais representantes são Georges Snyders (Alunos felizes) e Francisco Gomes de Matos (Pedagogia da positividade).
Um dos caminhos, dentre muitos, para a informalidade do ensino é o lúdico.
Por que o lúdico? Usando uma terminologia psicanalítica, o lúdico pode ser considerado um "material auxiliar expressivo", isto é, faz parte da terapêutica para a cura de muitos males do ensino. Desses males, o maior deles é o que nos lembram o grande poeta grego Píndaro (500 anos a.C.) e São Tomás de Aquino (século XIII): "o homem é um ser que esquece". Assim , ele precisa ser constantemente lembrado, principalmente do essencial, uma vez que o acidental o homem sempre traz na lembrança.
O homem é um ser que esquece "Se perguntássemos à milenar tradição do pensamento pelos fundamentos filosóficos da Educação, os antigos dar-nos-iam esta sentença - tão simples - para meditar: "O homem é um ser que esquece!"
No Ocidente, já entre os gregos (de Hesíodo a Aristóteles, de Safo a Platão), encontramos um extraordinário papel dado à memória (por vezes personificada em Mnemosyne), na educação.
(...)
O homem, ele que foi agraciado pela divindade com a chama do espírito, o homem (é o mito de Píndaro), afinal, saiu mal feito, mal acabado, ele tende ao embotamento, à insensibilidade... ao esquecimento!
É a partir dessa constatação - dessa trágica constatação de nossa condição ontológica (também ela, hoje, esquecida...) - que se edifica toda a educação ocidental.
As musas (filhas de Mnemosyne), as artes, são já uma primeira tentativa de Zeus para remediar essa situação: elas foram dadas pela divindade ao homem como companheiras, para ajudá-lo a lembrar-se... E é por essa mesma razão que os grandes pensadores da tradição ocidental consideravam as descobertas filosóficas, não tanto um deparar-se com algo novo ou insólito, mas, precisamente, des-cobertas: trazer à tona algo já visto, já sabido, mas que, por essa entrópica tendência para o esquecimento, não permanecera na consciência.
Assim, a missão profunda da educação não é de apresentar-nos o novo, mas algo já experimentado e sabido que, no entanto, permanecia inacessível: precisamente o que se expressa com a palavra lembrar.
LAUAND, Luiz Jean. Educação: Filosofia e História. São Paulo, Edix Edições, 1996, p. 39-41
Este trabalho constitui originalmente estudo do curso de Pós-Graduação da FEUSP: "A educação para as virtudes na tradição ocidental".
in:http://www.hottopos.com/mirandum/globali.htm