segunda-feira, 8 de junho de 2009

O Egito Africano

Mônica Carolina Savieto*

Muitos poderão estranhar o título deste breve artigo. Poderíamos considerar que se trata simplesmente de um pleonasmo. Mas, antes da década de 1950 e, sobretudo antes do colóquio realizado no Cairo em 1974, a historiografia tratou o Egito Antigo como uma civilização praticamente dissociada da África. Ainda hoje tal concepção está presente no âmbito do senso comum.
As pesquisas realizadas por Cheik Anta Diop, um dos principais participantes deste colóquio, foram preciosas para possibilitar uma nova visão e inaugurar uma nova historiografia para a África. O Egito africano, na sua identidade eminentemente negra e nas suas articulações com outras civilizações do continente, começa a ser esboçado.
Diop, pesquisador nascido no Senegal (em 1923), a partir dos 23 anos, fez seus estudos em Paris. Em 1951, sua tese de Doutorado foi rejeitada pela Sorbonne. Por fim, sua tese foi aceita com restrições em 1960. Sua tese, tão polêmica para a época, defendia simplesmente que a composição populacional original do Egito Antigo era negra.
Diop foi, nas décadas de 50 e 60, uma voz dissonante no meio acadêmico europeu. E sua grande importância para a historiografia e para a política africanas residiu justamente nesta dissonância.
Ao criticar autores europeus consagrados e precursores de estudos europeus sobre a Africa no século XIX - tais como Leo Frobenius, Olbrechts e Baumann -, Diop rompeu com o eurocentrismo e resgatou a cultura africana a partir de um olhar “de dentro”, ou seja, não permeado pela visão do conquistador. Desta forma, caberia aos africanos contarem sua própria história.
Há que se contextualizar a produção acadêmica destes autores europeus – e aqui delimitarei o autor Frobenius – pois suas produções transformaram-se em justificativa ideológica para um projeto político do século XIX.
Analisar cuidadosamente o discurso destes autores significa dar um passo no sentido da emancipação do continente africano, superando idéias pré-concebidas, estereotipadas, enfim, visões externas e alheias ao objeto de estudo.

Frobenius, em sua obra Mythologie de l’Atlantide, utiliza categorias tais como “raça” e “tribo” ao se referir aos Yorubá e os adjetiva de “primitivos”, “antipáticos”, “mentirosos”, “preguiçosos”, “sem educação moral”, “com muitos vícios” etc. Ao analisar a política, considera que “o sistema de governo atual é absolutamente deplorável” e que “o povo não tem noção que existe uma classe social dirigente” (FROBENIUS, 1949: 48 – 51). Estas afirmações claramente demonstram uma visão absolutizada do que seja uma “civilização”.
Ao analisar a arte Yorubá, Frobenius atribuiu-a a artistas provenientes de Cartago. Outros pesquisadores também atribuíram à diversidade cultural africana a influências externas. Considerou-se que as esculturas da Nigéria teriam origem grega; que as obras em bronze de Ifé seriam de origem italiana (do Renascimento) ou portuguesa ou, ainda, romana; que a arte Ashanti seria influenciada pelos portugueses ou pelos muçulmanos da Espanha. Enfim, toda a inventividade e originalidade cultural africana teria, segundo estes autores, origem externa.
Diop desvalida este tipo de argumentação. Cita que esta é uma “invenção cômoda” (DIOP, 1949) dos acadêmicos ocidentais para explicar a complexidade das civilizações africanas.
São, antes de tudo, argumentos a serviço do neo-colonialismo europeu. Diop contextualiza este projeto político ao aliar colonialismo e eurocentrismo, por um lado, e descolonização e afrocentricidade, por outro. Enfim, é necessário descolonizar as mentes, estimular novos olhares, propiciar pesquisas a partir do olhar africano e, com isso, dar visibilidade a outros projetos políticos. Assim, é possível desmontar os argumentos ideológicos dos conquistadores europeus e reforçar a identidade cultural africana.

Diop, ao pesquisar a população do Egito Pré-Dinástico e Dinástico, reportou-se a fontes iconográficas, materiais, escritas, além das de caráter biológico, já utilizadas por autores que consideravam haver no Egito uma significativa população branca.
Primeiramente, Diop denunciou o caráter arbitrário utilizado até então para tipificar as características físicas da população egípcia em negra ou branca. Alguns dados eram aceitos consensualmente e até revestidos de cientificismo ao descrever exaustivamente as supostas características eminentemente negras em contraste com as brancas (entre muitas variáveis, estes pesquisadores europeus citavam: largura do nariz, altura da órbita, comprimento do palato, comprimento e largura da face, etc.). Houve um grande esforço em catalogar quase dois mil crânios, do período Pré-Dinástico, nestes padrões. Como resultado, estas pesquisas apontavam para uma população composta por “36% de negróides, 33% de mediterrânicos, 11% de cro-magnóides e 20% de indivíduos que não se enquadravam em nenhum desses grupos, mas se aproximavam dos cro-magnóides ou dos negróides” (FALKENBURGER Apud DIOP, 1983: 41).
Diop denunciou o caráter arbitrário destes critérios, o método quase aleatório que chegava a dados altamente questionáveis. Mas estes dados revestiam-se do cientificismo típico de um trabalho exaustivamente quantitativo. Afinal, diriam estes pesquisadores europeus, foram esquadrinhados quase dois mil crânios! Nada mais inútil. Partiu-se da idéia de que há uma população negra homogênea, bem como uma população branca homogênea.
Para além dos fatores biológicos, há os fatores culturais. E Diop alia a cultura egípcia – religião, práticas cotidianas, relações familiares, práticas políticas, trabalho, entre outros – às várias civilizações africanas.
Desta forma, o diálogo da História com a Antropologia e a Etnologia se dá de forma mais rica do que o diálogo com a Biologia. Assim, foca-se um outro Egito Antigo: inserido de fato na África, em meio a uma diversidade cultural não hierarquizada.
Enfim, Diop contribui para a formação de uma historiografia que rompe com uma concepção temporal linear ou evolutiva, com o eurocentrismo e apontou para uma nova metodologia na história e para novos projetos políticos: a afrocentricidade e o Panafricanismo.

Em uma palestra proferida na Unicastelo, por ocasião da Semana de História de 2005, Abdu Ferraz (membro da Liga de Amigos e Estudantes Africanos) citou que o deus europeu cristão seria uma espécie de “deus juiz”, e o contato do homem com este se daria pela oração. Já o deus africano seria uma espécie de “deus artista”, e o contato do homem com este deus se daria pela expressão artística (música, dança, etc.). Neste sentido, o Egito Antigo se aproxima muito mais da África.
No Egito Antigo, havia a crença de que todos, desde o faraó até o camponês, eram responsáveis pela harmonia e pela redução do caos, ou seja, seriam colaboradores da deusa Maat (deusa da verdade, justiça, equilíbrio, medida). Temos aqui uma concepção de culto religioso em meio à colaboração. Esta concepção, de diferentes formas, aparece em outras sociedades africanas: ao expressar-se – artisticamente – colabora-se com a harmonia do universo.
Por outro lado, na Mesopotâmia, por exemplo, cabe ao homem submeter-se às “leis divinas”. Este homem já não é um colaborador (tal como na Egito), mas um ser a serviço dos deuses. Ciro Flamarion Cardoso sintetiza esta concepção mesopotâmica ao citar “eis aí o que, antes de tudo, se espera dos homens para que a ordem do mundo não fique desregulada. Obediência; e não, colaboração ativa e ética (CARDOSO, 1999: 52).”
Interpretações deste tipo, decerto ousadas, só foram possíveis primando pelo olhar africano. Enfim, um grande caminho para pesquisas foi aberto. Estando atentos para novos olhares, pautados pela afrocentricidade, poderemos focar a África por ela mesma e, como um desdobramento disso, focar um Egito verdadeiramente africano.





* Professora das disciplinas Antiguidades, Antiguidade e Fundamentos do Mundo Medieval e Medievalismo do curso de História da Unicastelo.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CARDOSO, Ciro Flamarion. Deuses, múmias e ziggurats: uma comparação das religiões antigas do Egito e da Mesopotâmia. Porto Alegre: Coleção História 27, 1999.
DIOP, Cheikh Anta. Nation nègres et culture. V.2. Paris: Presence Africaine, 1949.
_________________Origem dos antigos egípcios. In MOKHTAR, G. (org.). História Geral da África. V.1. São Paulo: Ática; Paris: UNESCO, 1983.
FROBENIUS, Leo. Mithologie de l’Atlantide. Paris: Payot, 1949.

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